Ação, Denise Levertov

Eu posso deixar aquela história
Eu posso deixar meus óculos
Eu posso deixar as listas imaginárias
Do que esquecer e do que deve ser
feito. Eu posso sacudir o sol
dos meus olhos e deixar tudo
na areia quente, e cruzar
a sussurrante soleira e caminhar
até o mar cristalino, e flutuar lá,
meus cabelos compridos flutuando, e os peixes
desaparecendo ao meu redor. Água profunda.
Pouco a pouco, a gente começa a saber
os limites e as profundidades do poder.

Denise Levertov / tr. Thais Medeiros
BAILARNOS_low

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Premissas, Yayoi Kusama

Por que todo mundo me perturba quando eu faço um happening em um espaço público? Por que há tantas dificuldades? Por que a maior parte da polícia americana interpreta mal minhas tentativas libertárias? Porque eles trabalham com sistemas jurídicos ultrapassados ​​e códigos morais antiquados, eles pensam que eu sou uma ameaça para a sociedade, e eu sou. Sou uma ameaça para a sociedade como ela é.

Quando, por exemplo, eu fiz um happening do lado de fora da Catedral de St. Patrick durante uma missa, eu o chamei de “Festival Fálico”. Eu acho ridículo homens e mulheres esconderem os seus corpos, especialmente quando visitam o seu Criador. Logo que cheguei, fui cercada por quatro carros de patrulha e quarenta policiais; então mudei o nome do happening para “Festival Fálico da Polícia de Keystone”. Os policiais ficaram irritados porque eu estava na frente da Catedral me oferecendo para pintar falos. Ninguém podia tirar a roupa por causa da polícia. Que ridículo! Vivemos no século XX, mas a Catedral de St. Patrick ainda está no século XV, arquitetônica e filosoficamente.

Apesar dessas difíceis condições, mais de duas mil pessoas revolucionárias de todo o mundo têm tirado suas roupas em público para se libertar. Eu recebo centenas de cartas expressando admiração ou interesse pelo meu trabalho, além de telefonemas diários de pessoas que gostariam de participar dos meus happenings. Mas, porque vivemos em um estado policial, meus convites nem sempre podem ser aceitos por todos.

Eu acho que a publicidade é vital para o meu trabalho porque é a melhor maneira para me comunicar com o maior número de pessoas: é um dos aspectos mais importantes da Mixed Media Art. A Mixed Media Art, que está se tornando tão importante para o mundo da arte internacional, está sendo divulgada por mim. Por isso, eu chamo as minhas manifestações de press happenings. Os artistas que sentem que suas ideias são dignas de comunicação devem ser a favor da publicidade, boa ou ruim, mas nunca indiferentes. A publicidade é parte da minha arte. Milhões de pessoas já viram meus happenings na televisão. A vida reclusa de Van Gogh e Modigliani não vale mais a pena. Um artista de vanguarda não deve romantizar, é – arte é real – é aqui – e é AGORA. A arte é o seu ambiente e um artista deve usar todos os seus aspectos para se comunicar. Eu uso a comunicação de massa como os pintores tradicionais usam tintas para suas telas. E nego completamente a condição de espectador da arte.

Escolhi as bolinhas como um motivo porque os círculos são muito simples, fáceis de serem trabalhados e imediatamente reconhecíveis. Resumindo, as bolinhas comunicam e meu tema principal é a comunicação com as pessoas. Meus happenings implicam em um elemento de tempo: a reação das pessoas, o que elas, a imprensa e a polícia fazem, e todos os telefonemas que se seguem, são espontaneamente parte do happening. Às vezes, uma reação violenta pode aumentar a emoção e o drama de um happening. E pode criar tensões que são muito importantes para qualquer experiência de vida, não importa qual seja a consequência.

Yayoi Kusama, 1969. Publicado originalmente no jornal Kusama Orgy, Vol. 1 No. 2

Tr. Thais Medeiros, Rébus 4. Rio, 2012.

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A propósito do Dia de los muertos

(Sem Título)

Tesouras

de luz

arranham a órbita dos

meus olhos

limpam as linhas

do meu crânio

Modelam

detalhes

dos outros

(história de entrar

na matéria)

– Plata, tendões,

Músculos –

Construções

passageiras

de uma paisagem

De um sonho,

um rio

de mim-mesmo.

Jorge Hernández Piel Divina, Perros habitados por la voces del desierto (2014).

Tr. Thais Medeiros (2016)

❥☠❥

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O verão do urso flutuante 

Há alguns meses, eu (Thais Medeiros) e Luiza Leite estamos no Escritório Cosmos trabalhando no editorial de uma publicação em homenagem à Floating Bear, uma newsletter/revista underground que foi editada pela Diane Di Prima durante uma década (1961-1971) em parceria com o poeta LeRoi Jones (mais tarde conhecido como Amiri Baraka). Tinha de tudo nessas paginazinhas grampeadas e enviadas gratuitamente por correio para uma lista de coreógrafos, poetas e artistas visuais: coisas inéditas da geração Beat, Black Mountain, New York School  [Bill Berkson, John Ashbery, Jack Spicer, Denise Levertov, John Wieners, Frank O’Hara, Lenore Kandel, Kenneth Koch, Anne Waldman, Charles Olson, além de traduções (Brecht, Cendrars, Emily Bronte etc!)] e outros poetas ótimos que nós não conhecíamos, além de textos experimentais [peças de um ato só, contos, críticas e outras coisas inclassificáveis]. Convidamos alguns poetas e tradutores entusiasmados para um mini mutirão de tradução para essa publicação que será bilíngue e lançada em breve!

O Escritório Cosmos fica na Rua México, 41 sala 1803, Centro, Rio de Janeiro.

IMG-1641.JPG

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Rébus em Plovdiv, Bulgária

Abre hoje à noite a exposição “Attention! Promised Place – Contesting Common Grounds” no FLUCA – Austrian Cultural Pavilion – NIGHT/Plovdiv 2017, com obras de artistas de vários países, unidos pelo discurso sobre o espaço urbano como diálogo e local de interações transculturais.

Opening tonight “Attention! Promised Place – Contesting Common Grounds”  at FLUCA – Austrian Cultural Pavilion – NIGHT/Plovdiv 2017, with works by artists from several countries, united by the discourse about urban space as a dialogue and a location of transcultural interactions.

com/ with Elke Auer & Esther Straganz, Lucas Bambozzi, Silvio De Camillis Borges & Igor Vidor, Veronika Burger, Marie Carangi, Emilio Domingos, Marc-Alexandre Dumoulin & Baptiste Elbaz, Female Obsession, Markus Hiesleitner, Anna Jermolaewa, Thais Medeiros, Michail Michailov, Jakob Neulinger & Noushin Redjaian/Soap&Skin, Kadija de Paula & Chico Togni, Juliana Dos Santos, Axel Stockburger, Kosta Tonev.

“Attention! Promised Place – Contesting Common Grounds”  15 – 30 September 2017

http://fluca.info/

 

 

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Lume

Inspiradas por receitas de comida para os orixás, eu e Judith Augustinovic começamos a cozinhar e pesquisar juntas. Demos a esse projeto o nome de Lume, pensando na ideia de iluminação alimentar e também em homenagem ao fogo. Juntas nós cozinhamos e oferecemos comida para, a partir desses encontros, conversar sobre questões relacionadas a alimentação e trazer para a mesa uma consciência política, histórica e sensorial. Procuramos não usar produtos industrializados, como açúcar e também não usamos carne, dando preferência a ingredientes orgânicos cultivados. Nossa vontade é fazer um livro de receitas ilustrado com oferendas públicas.

Em março de 2017 nós tivemos a oportunidade de cozinhar juntas em Viena, na NightSchool, projeto idealizado por Marissa Lôbo e Catrin Seefranz, que durante 6 meses proporcionou uma série de encontros que tinham como ponto de partida discutir e apresentar posições minoritárias e marginalizadas, rebeldes e vulneráveis – assuntos de classe, geografia, raça, questões corporais, de gênero, habilidade, sexualidade, influência e poder. Comer fazia parte da aula, e falar sobre comida também. Misturamos os grãos brasileiros e austríacos: fizemos uma salada de feijão fradinho misturado com feijão Käferbohnen com bastante cebola e azeite de semente de abóbora, o kürbiskernöl. Essa salada foi servida com ovos cozidos inteiros, bolinhos de batata rösti e grandes pimentas verdes assadas, com um pouquinho de dendê, que a Pêdra Costa, artista que vive em Viena e responsável pela cozinha da NightSchool, trouxe da feira de produtos turcos, a Brunnenmarkt. Fizemos também uma canjica com açúcar de tâmara e canela para sobremesa. Durante todo o tempo que cozinhamos escutamos música brasileira no toca-discos.

Ontem, durante a festa de um ano do Saracura, aproveitamos a estadia da Judith no Rio e o convite para participar da Lanchonete da Thelma Villas Boas, para fazer mais um jantar. Dessa vez, convidamos a Dona Iara de Oyá para uma participação especial. Dona Iara é mãe de santo há muitos anos e preparou uma comida que pode ser oferecida a quase todos os orixás: um feijão fradinho com bacalhau. Só o feijão fradinho já rende muita conversa! A salsa que tempera o prato, comentou a Dona Iara, é recomendada também para infusões medicionais ou banhos de limpeza. Com os feijões Käferbohnen a Judith preparou uma nova salada com azeitonas, batatinhas e paprika. Fizemos também um cuscuz de milho com côco e brigadeiros de tâmara com cacau. Foi maravilhoso.

A cada encontro trocamos receitas e livros. Para quem quiser ler um pouco mais sobre o tema, indicamos a leitura de ‘Santo também Come’, de Raul Lody e ‘Afro-Vegan’, do Bryan Terry.

*

Thais Medeiros é artista, tradutora e editora da Rébus.

Judith Augustinovic é artista e arquiteta austríaca, trabalha entre a Áustria e o Brasil.

Dona Iara de Oyá é mãe de santo, atividade que se dedica há muitos anos.

O projeto LANCHONETE <> LANCHONETE, da artista Thelma Villas Boas, é literalmente uma porta aberta para a rua, com um letreiro e um quadro de giz convidando o passante a entrar. Desde o início de maio, recebe artistas, pesquisadores, estudantes de todas as idades, turistas, moradores do Morro da Providência e do Morro da Conceição e transeuntes. Às terças e quintas-feiras, acontecem oficinas, sempre com entrada gratuita e abertas ao público em geral, com foco principal nos moradores da região portuária.

Videos Jantar na NightSchool:

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A Debutante, Leonora Carrington

“hj acordei cedo e fiquei horas na livraria procurando publicações independentes/experimentais de poesia/ficção/ artes. encontrei uma publicação inglesa q tinha a poeta q eu traduzi na primeira Rébus (Denise Levertov); uma revista chamada Stolen Paper Review, com Robert Sage e uma poeta canadense chamada Gwendolyn Macewen; gostei do editorial Forest Publications. encontrei tb um livro ótimo do André Breton – Anthology of Black Humour, pensei, vou ler o conto da primeira autora que aparecer, e era ela, Leonora Carrington. eu de vestido de zebra cor de rosa.” (Notas todo dia, maio, 2009.)

Em 2009 eu abri o livro “Anthology of Black Humour”, do André Breton e me propus a ler a primeira autora que aparecesse – encontrei A Debutante, de Leonora Carrington. Traduzi o conto pensando em publicar numa edição nova da Rébus e tinha vontade também de fazer um filme a partir da ‘festa da hiena’. Mostrei a história para duas amigas, Tatiana Dager e Glaucia Mayer, que logo se propuseram a fazer o figurino. A Marcela Maria, a eterna & the one and only Mc Xuparina, incorporou a hiena. Fizemos a festa. O Icaro dos Santos fez a trilha sonora ao vivo de “sons de hiena“, o Marco Aurélio Brandt fez a câmera. As cenas se passam nos bares da Rua Augusto Severo, na Glória, Rio de Janeiro. Projetamos o filme no dia do lançamento do zine Rébus 3 na livraria dos jardins do Museu da República (RJ).

Participações e agradecimentos: Catia Louredo, Gustavo Pessoa, Marcia Furacão, Rodrigo Savastano e Vicente de Mello.

A brilhante Marcela Maria ‘Mc Xuparina’ nos deixou no ano passado e agora está próximo a fazer o primeiro ano sem ela. É difícil contar tudo o que ela representa, fizemos muitas coisas juntas, como esse LaRica da Independência  inesquecívels e há vários vídeos dela online que recomendo e não canso de ver: Juízo Final Xuparia uma menina / Xuparina’s Journey (2016) Eu era Xuparoca. O filme Ainda não acabou, de Kornelia Kugler e Hanna Bergfors participou do Especial Xuparina na Mostra do Filme Livre 2017.

 

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