Enquanto estou longe – Raquel Jodorowsky

Raquel Jodorowsky, pintora e poeta, nasceu no Chile, filha de russos, e viveu muitos anos no Peru, onde se naturalizou (Chile 1927 – Peru, 2011). Nos anos 50, estudou Antropologia na Universidad Mayor de San Marcos, em Lima, e lá editou os seus primeiros livros de poesia: La ciudad inclemente (1955); En la pared de los suenos alguien llama (1957); Ensentidoinverso (1960). Em 1964, a revista mexicana el corno emplumado lhe dedicou toda uma edição, lançando o Ajy Tohen. Jodorowsky morou também no México, publicou nas revistas Nadaísmo 70, na Colômbia, além de ter participado de muitas outras antologias em diversos países. O poeta Jotamario Arbeláez conta que ela fez parte do movimento nadaísta: “Compartilhamos com ela as devastações dos anos 60, em Cali e Bogotá, onde a batizamos no rito roto do nadaísmo, ao qual ela se manteve fiel dentre tantas outras causas encaroçadas”. E conta ainda que, aos 13 anos, Raquel viajou 800 quilômetros para ver uma árvore e saudou-a como uma grande senhora. A árvore lhe retribuiu estendendo a mão, recorda-se.

Li pela primeira vez os poemas de Raquel Jodorowsky na revista Nadaísmo 70 (Archivo del Movimiento Nadaísta/ Biblioteca Pública Piloto), em Medellín. De volta à galáxia colombiana, em setembro de 2019, fui atrás dos seus livros nas bibliotecas de Bogotá (Casa de Poesia Silva y Biblioteca Luis Ángel Arango).  Dessa pesquisa, fiz uma seleção e traduzi dez poemas que foram retirados dos livros Ajy Tohen (México, 1964) e Caramelo de Sal (Peru, 1977), e que serão publicados em breve na singela série editorial de plaquettes nadaístas da Rébus (da qual também fazem parte Poemas Nada e De Mentira – 13 poemas de María de las Estrellas). 

A artista Carol Medeiros ilustra a publicação com Tesudas, série de bordados motivada pelo fascínio pelas flores e pelo sexo na natureza: seres-flores surreais, híbridas, eróticas. Repletas de cores, líquidos e espinhos. Férteis de vida e de tesão cósmico.

A Grande Senhora da Noite

Ajy Tojen quer dizer “O Criador de Luz” na língua

dos Yakutes de Turushank.

O Criador de Luz, em qualquer outro idioma, quer dizer

Um poeta.

Uma palavra mágica que pode ser comparada com as coisas que

não morrem, como as pedras.

Uma palavra fazedora de um homem que é a agulha que nos

cose ao infinito.

Ele chama e cria o nome. Chama “universo” e o universo se apresenta.

Com a sua velha boca de menino, é o único a evocar o Espírito da

noite, aquele que está em todas as partes, que não tem nome,

que não há nome para ele.

O poeta criador de luz, uma entidade solar, transmite sua mensagem

sobrenatural herdada do sangue de seus antepassados.

Nem bom, nem mau, como o coração de qualquer homem, como

a luz mesma que nunca está livre de uma aliança tenebrosa, como

a escuridão que nunca está inteiramente desprovida de luz.

Os poetas apareceram como flores na terra.

Sob os galhos da árvore do mundo, comendo carne de serpente,

aprenderam a imitar as vozes das aves. E assim descobriram

o segredo da vida. Então esfregam suas bochechas até fazer aparecer

uma terceira pele e nos revelam o destino e profetizam

por trás de todos os poemas.

O Ajy Tojen nos aproxima à sua boca de saber. Quer nos ensinar

a voltar a viver no cosmos como em uma cidade.

Dentro de um tambor mágico de águas bate seu rito, nos transmite

as instruções. E nós, reunidos como podemos neste

mundo vertebrado, daqui deste incêndio, aprendemos a te chamar:

Ah Grande Senhora da Noite

Nos aproxime de ti

quando já não nos resta nada mais da alma

Faça com que os nossos restos se transformem em coisas charmosas

Na sua escuridão, pinte-nos de roxo, a cor da vida.

Enquanto o tempo tarda a sua chegada

defenda-nos

dos que sempre estão apedrejando

nossa antiguidade

e não creem que fomos semelhantes aos

anjos de seis asas

Com a coragem de um carneiro te invocamos

transforme-nos em algo totalmente resplandecente

como fogo

e não nos explique tudo o que sabe

porque então já não haveria mais mistério

Fadados a existir mais tarde

vivendo várias existências de cada vez

Faça-nos habitar muitos mundos ao mesmo tempo

Grande Senhora da Noite

em seu coração de cogumelos alucinantes

seremos imortais

ainda que possivelmente um dia Deus mate-nos

Esconda atrás de uma máscara humana

a nossa verdadeira face

Espírito Inominável

no fumegante espelho que consulta o sol

guarde a nossa imagem

não nos faça parecer outro ser humano

para que ninguém se atreva a violar a proibição

de quebrar nossos ossos

outra vez na terra.

*

O Ajy Tojen

           está

           em

todas as partes

           não há

           nome

           não há

           nome

para ele

poemas de Raquel Jodorowsky / tradução Thais Medeiros

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De Mentira – 13 Poemas de María de las Estrellas

As coisas inventadas
São os poemas de mentira
Me dá raiva que publiquem
de poemas o que é verdade
María de las Estrellas

María de las Estrellas é uma poeta que começou a escrever ainda criança. Sua mãe, La Maga Atlanta, também poeta, fazia rituais cósmicos de paz e amor que trouxeram muito encanto para a infância de María. Seu padrasto, o poeta Jotamario Arbelaez, um dos fundadores do Nadaísmo – um rico movimento artístico e filosófico de contra-cultura colombiano, colhia seus versos quando ela começava a escrever em voz alta aos 4 anos, tendo sido também um dos seus principais interlocutores entre os demais amigos e poetas nadaístas.

Esta publicação é uma seleção de poemas de María retirados do livro El Mago en La Mesa, que foi publicado quando ela tinha 7 anos. Aos 8 anos, María ganhou o Prêmio Internacional de Literatura no 1º Congresso Mundial de Bruxaria (Bogotá, 1975) e, com isso, a publicação do seu segundo livro: La Casa del Ladrón Desnudo. Clarice Lispector, também foi convidada para este encontro, enfeitiçando a todos com o conto O Ovo e a Galinha.

  Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. 
Clarice Lispector

A poesia é uma pomba que entra no poema e volta a sair. Você tem um livrinho em mente e ali está escrito tudo. Você busca, busca nos pensamentos e ali encontra o que quer dizer. Há vezes em que surge uma rosa dentro do livro, você tira a rosa, dá para uma pessoa, e essa pessoa busca a rosa no seu livro até encontrar e a entrega para você.
María de las Estrellas

Aos 12 anos, María já frequentava as aulas de literatura da Universidad de los Andes. Há muitas histórias fantásticas em torno desta autora que escreveu coisas tão lindas ainda tão jovem. São poemas de uma criança para o mundo revolucionário que não se sabe se já aconteceu ou está para acontecer. Aos 13 anos, María se transformou em flor. Entrego esta Rosa para você que me lê.

Em 2018, o poeta Michael Benítez Ortiz organizou e publicou a antologia poética Cumplaños del Tiempo, de María de las Estrellas (Ediciones com Tinta Ebria, Bogotá, 2018). Em 2021, o livro com suas obras completas será publicada na França por Boris Monneau. María de las Estrellas, 1967 – 1981.

Edição à venda R$ 25,00 + envio pelo correio

Contato: rebuspress@gmail.com

Rébus, 2020
Concepção, edição e tradução Thais Medeiros
Design Icaro dos Santos
Revisão Vanise Medeiros
Ilustrações Amanda Ramos Dias, Antonia de Toledo Morales, Benicio Dantas, Catarina Simões Porto, Eva Bastos Salgueirinho, Fernando Botero, Gaia Gonçalves Penchel, Ines, Isabelle Santos da Silva, Joaquim Pimentel de Vasconcellos, Marcelo Ozório, Nina Martinho Moraes Sampaio, Pietra Martinho Selingarte Sampaio, Rayane Marcelino Martins, Rosa Guimarães, Zoé Pimentel de Vasconcellos.

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Horizontem

Horizontem é um poema visual, ou registro de um ato falho: “Nós não temos horizontem”, disse minha mãe em março de 2020, criando um ver ao ouvi-la que capturou minha imaginação e que fez pensar a poeta Luiza Leite: “Nós somos puro horizontem, tudo o que nos move é a nossa memória; nossos afetos e desejos são os nossos horizontens”.

Um ato falho poético! Mover é mover a pergunta. Já que o presente nos escapa, talvez seja pertinente (e necessário) olhar para o tempo tal como Janus, figura da mitologia romana que rege os começos e as transições com suas duas faces mirando em direções opostas, uma em direção ao passado e a outra em direção ao futuro.

Horizontem, poema visual de Thais Medeiros, suspenso do amanhecer ao pôr do sol na fachada do edifício na Rua Monte Alegre 482, construído em 1891.

Muito obrigada aos colaboradores: Bruna Trindade, Luiza Leite, Thais Rocha e Vanise Medeiros. Fotos: Vitor Medeiros Edição: Hermes de Paula. Dedicado à minha mãe.

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Desenhos para María de las Estrellas

Prorrogamos o prazo para o dia 3 de Julho de 2020 para o envio de desenhos para a publicação de poemas de María de las Estrellas.

Segue abaixo a lista de ilustrações: Sol, lua, galinhas, estrelas, máquina de escrever, máquina de costurar, sistema solar, bocas, cachorro, bolo de aniversário, cogumelos vovô, formigas, marionetes, pirâmides do Egito, Arca de Noé, astronautas, sereias, pomba, pena de pássaro, arco-íris, flores, trompete, Beethoven, apontador de lápis, coração, maçã, orelhas, edifícios, palhaços, olhos, relógios, pianos, andorinhas, rainha de cabelos azuis, escorpiões, rãs, buzinas de carro, maga e mago! Quem quiser participar, favor enviar as fotos dos desenhos em boa resolução para o email rebuspress@gmail.com, com nome completo, idade e contato da/do ilustrador.

Muito obrigada pelas ilustrações já enviadas!

Cada dia podemos colocar outro pedacinho no poema.

Dentro do sol
há pombinhas de calor
que todos os dias se derretem
para nos dar luz.

María de las Estrellas 
tradução Thais Medeiros
ilustrações Amanda Ramos Dias, Antonia de Toledo Morales, Catarina Simões Porto, Eva Bastos Salgueirinho, Ines, Rayane Marcelino Martins.

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De Mentira – Poemas de María de las Estrellas

A próxima publicação da Rébus será uma seleção de poemas traduzidos para português de María de las Estrellas, uma das filhas do nadaísmo colombiano. Convidamos crianças de todas as idades para criarem ilustrações para os versos da poeta que falam de: bolo de aniversário, cogumelos vovô, formigas, marionetes, pirâmides do Egito, Arca de Noé, astronautas, sereias, pomba, pena de pássaro, arco-íris, flores, trompete, Beethoven, apontador de lápis, coração, maçã, orelhas, edifícios, palhaços, olhos, relógios, pianos, andorinhas, rainha de cabelos azuis, escorpiões, rãs, buzinas de carro e mago Shespiar, ou Shakespeare, como preferirem. Para participar, favor enviar as fotos dos desenhos numa boa resolução / tipo alta, para o email rebuspress@gmail.com, com nome completo, idade e contato da/do ilustrador até o dia 23 de junho de 2020 (aniversário da Elza Soares). Mais adiante, quando tudo melhorar, a redação se compromete a enviar a edição impressa para cada um dos colaboradores e o convite para o lançamento e autógrafos. Os desenhos são livres.

As coisas inventadas
São os poemas de mentira
Me dá raiva que publiquem
de poemas o que é verdade.

Ao fim do Nadaísmo

Tranquilo paizinho
que na próxima encarnação
vai haver outros nadaísmos
mais belos

O que você queria
que uma época
durasse para toda a vida?

A Rainha Nua
(Roteiro de cinema)

  1. A rainha sai de uma banheira de mármore enrolada em uma película de cinema.
  2. O cabelo da rainha é azul e vai até os pés.
  3. Surge um escorpião, rouba a coroa da rainha e a coloca na sua cabeça.
  4. A rainha dá um salto e se pendura na lâmpada do teto. Com a outra mão, ela acende a luz. A película se desenrola e ela fica nua.
  5. O escorpião coloca um lenço em cima da coroa, amarra, se joga pela janela e cai na água.
  6. O rei se levanta e tapa os ouvidos.
  7. O mago vai até a rainha, a rainha se desprende e o mago Shespiar coloca outra coroa em sua cabeça.

Efeitos: Cantos de rãs e buzinas de carro.

María de las Estrellas 
tradução Thais Medeiros
ilustrações Isabelle Santos da Silva

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Mingau, Galway Kinnell

Eu como mingau no café da manhã.
Eu o preparo na panela elétrica e adiciono leite desnatado.
Como sozinho.
Estou ciente de que não é bom comer mingau sozinho.
Sua consistência é tal que é melhor para sua saúde mental
se alguém comer com você.
Por isso com frequência invento um amigo imaginário
com quem tomar café da manhã.
Talvez seja ainda pior comer mingau com um amigo
imaginário.

Não obstante, ontem de manhã, comi meu mingau,
como ele mesmo o chamou, com John Keats.
Keats disse que eu estava absolutamente correto ao convidá-lo:devido a sua
textura grudenta, sua consistência pegajosa, um quê de gosma
e vontade incomum de se desintegrar,o mingau não deve ser ingerido
sem companhia.
Ele disse que na sua opinião, entretanto, é perfeitamente OK comê-lo
com um amigo imaginário, e ele próprio já havia
desfrutado de mingaus memoráveis com Edmund Spenser e John Milton.

Ainda que comer mingau com um amigo imaginário não seja
tão saudável como Keats defende, você pode aprender
algo com isso.
Ontem de manhã, por exemplo, Keats me falou de como escreveu
“Ode a um Rouxinol”.
Ele se divertiu pra caramba finalizando-o, essas foram as suas palavras
“M’dverti prac’ramba”, foi mais ou menos o que ele disse, com a boca
cheia de mingau.

Ele escreveu os versos rapidamente, em pedacinhos de papel, que depois enfiou no bolso, mas quando chegou em casa, não conseguia lembrar a ordem das estrofes,
ele e um amigo espalharam os papéis sobre a mesa, e conseguiram
encontrar algum sentido, mas ele não tem certeza até hoje se acertaram.
Uma estrofe inteira pode ter se perdido no forro por um buraco
no bolso do seu casaco.
Ele ainda desconfia de um certo deslizamento entre as estrofes,
e no modo como aqui e ali um verso assume
a configuração de um muçulmano rezando, que se levanta,
olha ao redor, e depois volta a curvar-se um pouco deslocado,
fazendo com que o poema avance rateando, desajeitado e brilhante.
Ele disse que alguém contou que mais tarde na vida Wordsworth
ouviu falar dos pedacinhos de papel sobre a mesa, e tentou
remontar as estrofes, o que só piorou a situação.
Eu não saberia nada disso não fosse a resistência a comer mingau sozinho.

Quando terminamos o café da manhã, John recitou “Ao Outono”.
Recitou devagar, com intensidade, articulou as palavras
amorosamente, e seu sotaque peculiar soou doce.
Ele não me contou como escreveu “Ao Outono”, talvez não haja
uma grande história por trás.
Mas ele disse que a visão de um campo logo após a colheita de aveia disparou
o poema, e os versos “Pois o verão já fez transbordar os seus
favos viscosos” e “Observas com calma a longa passagem do tempo, horas e horas”
ocorreram-lhe enquanto comia mingau sozinho.
Consigo imaginá-lo servindo-se de uma colherada cheia, olhando para os
sulcos reluzentes, falando consigo mesmo.

Talvez não haja o sublime; apenas o brilho dos resquícios do âmnio.
Hoje no jantar vou comer uma batata assada que sobrou do almoço.
Estou ciente de que uma batata assada é úmida, escorregadia,
e simultaneamente borrachuda e esfarelenta, portanto irei convidar
o Patrick Kavanagh para se juntar a mim.

“Oatmeal”, de Galway Kinnell, tradução Luiza Leite e Thais Medeiros
escute a leitura do poema voz de Galway Kinell

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Aqui vamos nós, 2020

Correntes de sono
de Anne Carson

Quem consegue dormir quando ela –
centenas de milhas distante eu sinto aquela vasta brisa
ventilar seus incansáveis cais.
Cicatriz por cicatriz
todos os elos
ralham uma vez.
Aqui vamos nós mãe no oceano sem navios.
Pena de nós, pena do oceano, aqui vamos nós.

“Sleepchains”, de Anne Carson, tradução Thais Medeiros.

 

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Love Song, Denise Levertov

Love Song

Sua beleza, que eu perdi de vista uma vez
por muito tempo, é longa,
não simétrica, e veste
as cores da terra que me fazem vê-la

Uma beleza longa, o que é isso?
Uma canção
que pode ser cantada de novo e de novo
longas notas ou longos ossos

O amor é uma paisagem, as longas montanhas
definem, mas não
impedem a
distância não vista

No outono, no outono
suas árvores esticam
seus longos braços, em mangas
vermelho-terra e

amarelo-solar, um pouco
tortos. Eu faço longas
caminhadas entre eles. As uvas
que precisam do frio para amadurecer

são âmbar e crescem profundas
nas videiras, meio escondidas
da mesma forma que a sua beleza cresce
como longas gavinhas, meio na escuridão

Tradução Thais Medeiros
escute a leitura do poema voz da Denise Levertov https://mailchi.mp/theparisreview.org/poem-132585?e=3ecb7a00d7

foto Thais Medeiros

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Manifesto Para Arte da Manutenção, Mierle Laderman Ukeles

MANIFESTO PARA ARTE DE MANUTENÇÃO 1969!

Proposta para a exposição “CARE (CUIDADO)”

MIERLE LADERMAN UKELES

Tr. Thais Medeiros

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I. IDEIAS

A. O Instinto de Morte e o Instinto de Vida:

O Instinto de Morte: separação; individualidade; Vanguarda por excelência; seguir o próprio caminho para a morte – fazer o que quiser; mudança dinâmica.

O Instinto da Vida: unificação; o eterno retorno; a perpetuação e a MANUTENÇÃO das espécies; sistemas e operações de sobrevivência; equilíbrio.

B. Dois sistemas básicos: Desenvolvimento e Manutenção. O limão azedo de toda revolução: depois da revolução, quem vai recolher o lixo na segunda-feira de manhã?

Desenvolvimento: pura criação individual; o novo;  mudança; progresso; avanço; entusiasmo; vôo ou evasão.

Manutenção: manter a poeira longe da pura criação individual; preservar o novo; sustentar a mudança; proteger o progresso; defender e prolongar o avanço; renovar o entusiasmo; repetir o vôo;

mostre seu trabalho – mostre-o novamente

mantenha o museu de arte contemporânea legal 

mantenha os incêndios domésticos acesos

Os Sistemas de Desenvolvimento são respostas parciais de sistemas com maior espaço para mudanças.

Os Sistemas de Manutenção são respostas diretas de sistemas com pouco espaço para alteração.

C. A Manutenção é uma chatice; ocupa toda a porra do tempo (lit.)

Dá arrepios e irrita de tanto tédio.

A cultura não valoriza os trabalhos de manutenção = 

salário mínimo, donas de casa = sem remuneração.

limpe sua mesa, lave os pratos, limpe o chão, lave as roupas, lave os dedos dos pés, troque a fralda do bebê, termine o relatório, corrija os erros ortográficos, conserte a cerca, mantenha o cliente satisfeito, jogue fora o lixo fedido, cuidado! não fique olhando com nariz torto, o que devo vestir, não tenho meias, pague as contas, não faça sujeira, guarde os rascunhos, lave seu cabelo, troque os lençóis, vá ao mercado, o perfume acabou, diga de novo – ele não entende, certifique-se de novo – está vazando, vá trabalhar, esta arte é empoeirada, limpe a mesa, ligue para ele de novo, dê descarga, mantenha-se jovem.

D. Arte:

Tudo o que eu disser que é Arte, é Arte. Tudo o que eu fizer é Arte, é Arte. “Nós não temos arte, nós procuramos fazer tudo bem feito.” (Dito Bali)

A arte de Vanguarda, que reivindica o desenvolvimento total, está impregnada por várias idéias de manutenção, atividades de manutenção e materiais de manutenção. 

As artes Conceitual & de Processo, especialmente, reivindicam puro desenvolvimento e mudança, mas se utilizam de simples processos de manutenção.

E. A exposição da Arte de Manutenção, “CARE (CUIDADO)”, se resume a pura manutenção e a exibe como arte contemporânea, produzindo, por absoluta oposição, a transparência das questões.

II. A EXPOSIÇÃO DA ARTE DE MANUTENÇÃO: “CARE (CUIDADO)”

Três partes: Manutenção Pessoal, Geral e da Terra.

A. Parte Um: Pessoal

Eu sou artista. Eu sou mulher. Eu sou esposa. Eu sou mãe (Ordem aleatória).

Eu lavo muita louça, limpo, cozinho, faço reformas, ajudo, preservo etc. Além disso, separadamente, eu “faço” arte. 

A partir de agora, vou me dedicar às tarefas cotidianas de manutenção e fazer com que tomem consciência delas exibindo-as como Arte. Vou morar no museu e fazer o que faço em casa com meu marido e meu bebê durante a exposição (Certo? Ou se vocês não me quiserem por aí à noite, eu posso ir todos os dias), vou fazer todas essas coisas como atividades públicas de arte: varrer e encerar o chão, tirar a poeira de tudo, lavar as paredes (ou seja, “pinturas de chão, trabalhos com pó, esculturas de sabão, pinturas de parede”) cozinhar, convidar as pessoas para comer, fazer aglomerações e dispor todo o lixo funcional.

A área de exibição poderá parecer “vazia” de arte, mas será mantida inteiramente visível para o público.

MEU TRABALHO SERÁ O TRABALHO

B. Parte Dois: Geral

Todo mundo faz muito trabalho de manutenção de improviso. A parte geral da exposição consiste em entrevistas de dois tipos.

1. Entrevistas individuais realizadas previamente, digitadas e expostas.

Os entrevistados serão, digamos, de 50 classes diferentes e tipos de ocupações que variam desde “homens” da manutenção, empregados, “homens” do saneamento, “homens” dos correios,  “homens” do sindicato, pedreiros, bibliotecários, “homens” da mercearia, enfermeiros, médicos, professores, diretores de museu, jogadores de beisebol, vendedores, crianças, criminosos, presidentes de banco, prefeitos, estrelas de cinema, artistas, etc., sobre: 

– o que você acha que é manutenção;

– como você se sente em gastar qualquer parte da sua vida em atividades de manutenção;

-qual é a relação entre manutenção e liberdade;

-qual é a relação entre manutenção e sonhos de vida.

2. Sala de Entrevistas – para os espectadores da Exposição:

Uma sala com mesas e cadeiras onde entrevistadores profissionais (?)  farão entrevistas com os espectadores da exposição sobre as mesmas perguntas anteriores. As respostas devem ser pessoais.

Essas entrevistas serão digitadas e reproduzidas por toda a área da exposição.

C. Parte Três: Manutenção da Terra

Todos os dias, recipientes com os seguintes tipos de lixo serão entregues ao Museu:

–  o conteúdo de um caminhão de lixo; 

– um recipiente de ar poluído; 

– um recipiente com água poluída do rio Hudson; 

– um recipiente de terra devastada.

Uma vez na exposição, cada recipiente será  tratado:

purificado, despoluído, reabilitado, reciclado e tratado por vários procedimentos técnicos (e / ou pseudo-técnicos) realizados por mim ou por cientistas.

Esses procedimentos de manutenção serão repetidos durante todo o tempo da exposição.

Desenho de Thais Medeiros  

Desenho de Thais Medeiros

 

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Suíte D’água na Athens Art Book Fair

A Suíte D’água vai participar da Athens Art Book Fair que acontece no próximo fim de semana, dias 7 e 8 de Setembro, numa seção dedicada a desdobramentos multimídia de publicações de arte.

A partir do encontro de rios ficcionais, Suite d´água foi uma intervenção sonora realizada em um barco de passeio no Rio Guaíba, em Porto Alegre. Para essa intervenção, proposta por Thais Medeiros e Viviane Gueller, foi feita uma convocatória e partir das colaborações sonoras & visuais, gravado um programa que foi transmitido nos alto-falantes do barco como um ‘guia’ de turismo. Uma travessia diferente guiada por uma experiência sensorial sonora mas também bastante cinematográfica. 

*

The Suíte D’água (Water Suite) will participate in the Athens Art Book Fair that will be held next weekend (September 7th/ 8th) in a section dedicated to multimedia developments of art publications.

From the fictional rivers, Suite d´água was a sound intervention performed in a boat on the Guaíba River, in Porto Alegre. For this intervention, proposed by Thais Medeiros and Viviane Gueller,  an open call was made for participants and using the collaborations of several sound & visual pieces they recorded a fictional program that was broadcast over the speakers of the boat as a ‘ guide ‘.  The tour was guided by a sensorial and cinematographical experience.

Suíte D’água: https://soundcloud.com/miss_seda/suitedagua

Program:

Bells and western – Debussy Bar Restaurante
Pílula Sonora I – Viviane Gueller
Sealed Air – Peter Barnard
Sono I – Carla Venusa
Famire – Drenos
Baby Performer – Angelika Petzold
Ipanema Amour – Mad Professor
Sparkling – Margaret Noble
Heliponto Pataxó – Thais M.
O Dono do Corpo – Aimberê César
Cordel de Arte Contemporânea – Kristofer Paetau
Profit & Loss – Mad Professor
Sono IV – Carla Venusa
Samba Dub Funk – Mad Professor
Future Grade – Yoav Ruda & Jonnie Shuali
Pas Mal – Debussy Bar Restaurante
Pílula Sonora II – Viviane Gueller
Roa – Ron Guetta
Linea 2 – Jorge Sosa

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