Premissas, Yayoi Kusama

Por que todo mundo me perturba quando eu faço um happening em um espaço público? Por que há tantas dificuldades? Por que a maior parte da polícia americana interpreta mal minhas tentativas libertárias? Porque eles trabalham com sistemas jurídicos ultrapassados ​​e códigos morais antiquados, eles pensam que eu sou uma ameaça para a sociedade, e eu sou. Sou uma ameaça para a sociedade como ela é.

Quando, por exemplo, eu fiz um happening do lado de fora da Catedral de St. Patrick durante uma missa, eu o chamei de “Festival Fálico”. Eu acho ridículo homens e mulheres esconderem os seus corpos, especialmente quando visitam o seu Criador. Logo que cheguei, fui cercada por quatro carros de patrulha e quarenta policiais; então mudei o nome do happening para “Festival Fálico da Polícia de Keystone”. Os policiais ficaram irritados porque eu estava na frente da Catedral me oferecendo para pintar falos. Ninguém podia tirar a roupa por causa da polícia. Que ridículo! Vivemos no século XX, mas a Catedral de St. Patrick ainda está no século XV, arquitetônica e filosoficamente.

Apesar dessas difíceis condições, mais de duas mil pessoas revolucionárias de todo o mundo têm tirado suas roupas em público para se libertar. Eu recebo centenas de cartas expressando admiração ou interesse pelo meu trabalho, além de telefonemas diários de pessoas que gostariam de participar dos meus happenings. Mas, porque vivemos em um estado policial, meus convites nem sempre podem ser aceitos por todos.

Eu acho que a publicidade é vital para o meu trabalho porque é a melhor maneira para me comunicar com o maior número de pessoas: é um dos aspectos mais importantes da Mixed Media Art. A Mixed Media Art, que está se tornando tão importante para o mundo da arte internacional, está sendo divulgada por mim. Por isso, eu chamo as minhas manifestações de press happenings. Os artistas que sentem que suas ideias são dignas de comunicação devem ser a favor da publicidade, boa ou ruim, mas nunca indiferentes. A publicidade é parte da minha arte. Milhões de pessoas já viram meus happenings na televisão. A vida reclusa de Van Gogh e Modigliani não vale mais a pena. Um artista de vanguarda não deve romantizar, é – arte é real – é aqui – e é AGORA. A arte é o seu ambiente e um artista deve usar todos os seus aspectos para se comunicar. Eu uso a comunicação de massa como os pintores tradicionais usam tintas para suas telas. E nego completamente a condição de espectador da arte.

Escolhi as bolinhas como um motivo porque os círculos são muito simples, fáceis de serem trabalhados e imediatamente reconhecíveis. Resumindo, as bolinhas comunicam e meu tema principal é a comunicação com as pessoas. Meus happenings implicam em um elemento de tempo: a reação das pessoas, o que elas, a imprensa e a polícia fazem, e todos os telefonemas que se seguem, são espontaneamente parte do happening. Às vezes, uma reação violenta pode aumentar a emoção e o drama de um happening. E pode criar tensões que são muito importantes para qualquer experiência de vida, não importa qual seja a consequência.

Yayoi Kusama, 1969. Publicado originalmente no jornal Kusama Orgy, Vol. 1 No. 2

Tr. Thais Medeiros, Rébus 4. Rio, 2012.

Advertisements

About rebuspress

@rebuspress https://vimeo.com/rebuspress
This entry was posted in Uncategorized. Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s