Lume

Inspiradas por receitas de comida para os orixás, eu e Judith Augustinovic começamos a cozinhar e pesquisar juntas. Demos a esse projeto o nome de Lume, pensando na ideia de iluminação alimentar e também em homenagem ao fogo. Juntas nós cozinhamos e oferecemos comida para, a partir desses encontros, conversar sobre questões relacionadas a alimentação e trazer para a mesa uma consciência política, histórica e sensorial. Procuramos não usar produtos industrializados, como açúcar e também não usamos carne, dando preferência a ingredientes orgânicos cultivados. Nossa vontade é fazer um livro de receitas ilustrado com oferendas públicas.

Em março de 2017 nós tivemos a oportunidade de cozinhar juntas em Viena, na NightSchool, projeto idealizado por Marissa Lôbo e Catrin Seefranz, que durante 6 meses proporcionou uma série de encontros que tinham como ponto de partida discutir e apresentar posições minoritárias e marginalizadas, rebeldes e vulneráveis – assuntos de classe, geografia, raça, questões corporais, de gênero, habilidade, sexualidade, influência e poder. Comer fazia parte da aula, e falar sobre comida também. Misturamos os grãos brasileiros e austríacos: fizemos uma salada de feijão fradinho misturado com feijão Käferbohnen com bastante cebola e azeite de semente de abóbora, o kürbiskernöl. Essa salada foi servida com ovos cozidos inteiros, bolinhos de batata rösti e grandes pimentas verdes assadas, com um pouquinho de dendê, que a Pêdra Costa, artista que vive em Viena e responsável pela cozinha da NightSchool, trouxe da feira de produtos turcos, a Brunnenmarkt. Fizemos também uma canjica com açúcar de tâmara e canela para sobremesa. Durante todo o tempo que cozinhamos escutamos música brasileira no toca-discos.

Ontem, durante a festa de um ano do Saracura, aproveitamos a estadia da Judith no Rio e o convite para participar da Lanchonete da Thelma Villas Boas, para fazer mais um jantar. Dessa vez, convidamos a Dona Iara de Oyá para uma participação especial. Dona Iara é mãe de santo há muitos anos e preparou uma comida que pode ser oferecida a quase todos os orixás: um feijão fradinho com bacalhau. Só o feijão fradinho já rende muita conversa! A salsa que tempera o prato, comentou a Dona Iara, é recomendada também para infusões medicionais ou banhos de limpeza. Com os feijões Käferbohnen a Judith preparou uma nova salada com azeitonas, batatinhas e paprika. Fizemos também um cuscuz de milho com côco e brigadeiros de tâmara com cacau. Foi maravilhoso.

A cada encontro trocamos receitas e livros. Para quem quiser ler um pouco mais sobre o tema, indicamos a leitura de ‘Santo também Come’, de Raul Lody e ‘Afro-Vegan’, do Bryan Terry.

*

Thais Medeiros é artista, tradutora e editora da Rébus.

Judith Augustinovic é artista e arquiteta austríaca, trabalha entre a Áustria e o Brasil.

Dona Iara de Oyá é mãe de santo, atividade que se dedica há muitos anos.

O projeto LANCHONETE <> LANCHONETE, da artista Thelma Villas Boas, é literalmente uma porta aberta para a rua, com um letreiro e um quadro de giz convidando o passante a entrar. Desde o início de maio, recebe artistas, pesquisadores, estudantes de todas as idades, turistas, moradores do Morro da Providência e do Morro da Conceição e transeuntes. Às terças e quintas-feiras, acontecem oficinas, sempre com entrada gratuita e abertas ao público em geral, com foco principal nos moradores da região portuária.

Videos Jantar na NightSchool:

https://vimeo.com/232278227

https://vimeo.com/232277968

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About rebuspress

@rebuspress https://vimeo.com/rebuspress
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